Jornal Imagem - 15/06/2026 09:50 - Visualizações: 23
Entre a Copa e a Vigilância Democrática – Por Euclides Staub
Narração
A abertura de mais uma Copa do Mundo tem o poder de mobilizar o país inteiro. Durante algumas semanas, o cotidiano nacional passa a ser compartilhado com a expectativa pelos jogos, pelas seleções e, sobretudo, pelo desempenho da equipe brasileira. Trata-se de um fenômeno cultural legítimo e compreensível. Afinal, uma sociedade não vive apenas de política, economia ou crises institucionais.
Contudo, existe uma diferença importante entre permitir que determinados assuntos saiam temporariamente do centro das atenções e permitir que sejam esquecidos. Em uma democracia madura, o interesse despertado por grandes eventos não pode servir de pretexto para o abandono da vigilância sobre aqueles que ocupam posições de poder.
A recente nomeação de Renata Gil para um cargo de direção no Tribunal Superior Eleitoral, em meio à sua relação com o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, reacende um debate que transcende nomes e circunstâncias específicas. A questão central não está necessariamente na capacidade técnica da indicada, mas na necessidade permanente de transparência e de escrutínio público sobre decisões que envolvem as mais altas instituições da República.
Democracias sólidas dependem da disposição da sociedade em formular perguntas legítimas, mesmo quando elas são incômodas. A saúde institucional de um país exige que fatos relevantes sejam examinados com rigor, independentemente da agenda do momento. Nesse contexto, também permanece atual o debate em torno das relações entre integrantes do Supremo Tribunal Federal e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
As revelações envolvendo contratos milionários firmados entre o banco e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes continuam a exigir esclarecimentos públicos. Não se trata de antecipar julgamentos ou atribuir ilegalidades sem provas, mas de reconhecer que a confiança nas instituições depende da plena transparência em situações que possam suscitar dúvidas razoáveis sobre conflitos de interesse ou aparência de favorecimento.
A experiência brasileira demonstra que a integridade da vida pública não se sustenta apenas pela punição de atos ilícitos comprovados. Ela também depende da prevenção de circunstâncias capazes de comprometer a credibilidade das instituições. Foi essa compreensão que orientou o combate ao nepotismo e fortaleceu, ao longo das últimas décadas, a cultura da impessoalidade, dos impedimentos e da prestação de contas.
A moralidade administrativa, princípio consagrado pela Constituição Federal, exige mais do que a simples observância da legalidade. Exige que autoridades públicas estejam dispostas a prestar esclarecimentos sempre que suas condutas ou relações suscitem questionamentos legítimos por parte da sociedade.
A Copa do Mundo passará. Os gols, as vitórias e as derrotas logo farão parte da memória esportiva do país. Já os desafios relacionados à transparência, à responsabilidade pública e à credibilidade das instituições permanecerão. Por isso, a atenção nacional pode até se dividir durante o torneio, mas não deve se desviar dos temas que dizem respeito aos fundamentos da democracia e da confiança pública.