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BOCA NO TROMBONE - Por Euclides Staub

Jornal Imagem - São Paulo - 13/10/2026 18:21 - Visualizações: 39

BOCA NO TROMBONE - Por Euclides Staub

O que é isso, companheiro? Festa estranha com gente esquisita

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A chamada “Marcha pela Democracia”, realizada pelo PT na Avenida Paulista, em São Paulo, no último domingo, deixou uma série de questionamentos sobre o significado de democracia para os organizadores do evento. A começar pela polêmica envolvendo o uso de drones para estimar o público presente. A ameaça de impedir o uso desses equipamentos levantou dúvidas sobre a transparência na divulgação dos números. Enquanto os organizadores estimaram a presença de um milhão de pessoas, outras avaliações apontaram números bem inferiores. Sem uma contagem independente e verificável, a divergência permanece.

O evento reuniu representantes de movimentos sociais, artistas, lideranças políticas e apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A presença de nomes como Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Simone Tebet e Geraldo Alckmin evidenciou a amplitude da aliança política formada em torno do presidente. Uma composição heterogênea, com diferentes correntes e interesses, unida principalmente pelo objetivo de fortalecer o campo governista e enfrentar seus adversários.

Em seu discurso, Lula dirigiu-se especialmente ao público jovem, falou sobre transformação tecnológica e pediu mobilização para ampliar o apoio eleitoral. O encontro, no entanto, também foi marcado por críticas e provocações contra adversários políticos, num ambiente em que a polarização continua ocupando o centro do debate nacional.

É justamente nesse cenário que cabe uma reflexão: até que ponto a militância política contribui para o debate democrático quando o adversário passa a ser tratado como inimigo? Em uma democracia saudável, divergências devem ser enfrentadas com argumentos, propostas e respeito às regras, e não com a desqualificação automática de quem pensa diferente.

Outro aspecto que chama a atenção é o uso dos símbolos nacionais. Na manifestação da Paulista, o vermelho predominou, enquanto o verde e amarelo teve presença menos expressiva. Nas mobilizações conservadoras, por outro lado, a bandeira brasileira costuma ocupar lugar de destaque, acompanhada de referências à família e à fé religiosa. São manifestações distintas de identidade política, que revelam a disputa pelo significado dos símbolos nacionais e pelos valores que cada grupo deseja representar.

Também preocupa a facilidade com que slogans e palavras de ordem substituem, muitas vezes, a análise crítica. Esse fenômeno não é exclusivo de um partido ou de uma corrente ideológica. Quando a fidelidade política se sobrepõe à capacidade de questionar, fatos inconvenientes são ignorados, contradições são relativizadas e a opinião passa a depender mais da identidade do grupo do que da realidade.

A discussão sobre segurança pública é um exemplo dessa dificuldade. O combate ao crime organizado exige responsabilidade, respeito à lei e políticas eficazes. Defender direitos fundamentais não significa tolerar organizações criminosas; da mesma forma, cobrar uma atuação policial rigorosa não dispensa o respeito às garantias legais. Transformar esse debate em uma disputa de rótulos apenas aprofunda a divisão do país.

A defesa da democracia também precisa ser coerente. Questionamentos sobre transparência eleitoral, uso dos meios de comunicação públicos e eventuais restrições à divulgação de conteúdos merecem apuração séria, independentemente de quem seja beneficiado ou prejudicado. Acusações sobre interferências, censura ou favorecimento político não devem ser tratadas como verdades estabelecidas sem evidências, mas tampouco podem ser descartadas sem exame.

No fim das contas, democracia não é uma palavra de ordem exclusiva de um partido. É o compromisso com a liberdade de expressão, a pluralidade de ideias, a fiscalização do poder e o direito de oposição. Vale para quem governa e para quem pretende governar.

O Brasil não precisa de manifestações que transformem diferenças políticas em guerras permanentes. Precisa de cidadãos capazes de pensar por conta própria, cobrar coerência de seus representantes e reconhecer que nenhum partido é dono da verdade — muito menos da democracia.

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