Jornal Imagem - 17/10/2026 09:27 - Visualizações: 76
Compra de votos fiado
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Compra de votos fiado: quando a consciência vira moeda de troca
A política brasileira tem dessas ironias: até a compra de votos ganhou uma nova modalidade — a prazo, no velho estilo do “fiado”. Promessas hoje, favores amanhã e, depois das eleições, o eleitor fica esperando receber aquilo que lhe foi prometido. O problema é que, muitas vezes, quem paga a conta é a própria comunidade.
Na época da campanha, aparece de tudo: promessa de emprego, ajuda financeira, material de construção, combustível, consultas e até aquela atenção que o eleitor passou anos esperando. Alguns candidatos fazem questão de bater à porta, apertar a mão e chamar todo mundo de amigo. Mas, passada a eleição, o telefone não atende, a mensagem fica sem resposta e a amizade parece ter vencido junto com o prazo da promessa.
O chamado “voto fiado” funciona como uma negociação perigosa: o candidato promete resolver um problema particular em troca de apoio nas urnas. O eleitor, pressionado pelas dificuldades, pode acabar acreditando que aquela ajuda vale mais do que quatro anos de decisões políticas. Só que mandato não é favor pessoal, e direito do cidadão não deveria depender de promessa de campanha.
É preciso reconhecer que a responsabilidade não está apenas em quem aceita a troca. Quem usa a necessidade do povo para conquistar poder também contribui para perpetuar a pobreza, a dependência e a descrença na política. O voto não pode ser tratado como mercadoria, muito menos como uma dívida a ser cobrada depois da eleição.
A democracia exige liberdade de escolha, consciência e compromisso com o interesse coletivo. Quando o voto vira moeda, a população perde força para cobrar políticas públicas, fiscalização, saúde, educação, infraestrutura e oportunidades para todos.
No fim das contas, fica a pergunta: quem compra votos fiado pretende pagar a promessa ou apenas receber o mandato à vista?
Porque, na política, promessa pode até ser feita a prazo, mas as consequências de uma escolha errada são pagas por toda a população durante anos.
Voto não é mercadoria, consciência não tem preço e cidadania não se vende fiado.
17/10/2026 11:19